Artigo: Busca pelo conhecimento move cientistas, não a economia

Artigo: Busca pelo conhecimento move cientistas, não a economia

oglobo.globo.com - Hugo Aguilaniu, Amanda Almeida, André De Souza, Aguirre Talento, Ana Clara Costa, O Globo

Ano de 1930: uma época de pobreza, crime organizado, lei seca e altas taxas de desemprego nos Estados Unidos. Em meio à Grande Depressão, na esteira da Revolução Industrial do século 19, quando o conhecimento científico demostrou da forma mais impressionante seu poder econômico, a pressão por transformar a ciência em uma atividade lucrativa chegava ao auge. Neste contexto, Abraham Flexner fundou uma instituição ímpar, onde pesquisadores podiam fazer o tipo de ciência que desejassem, sem a exigência de justificar sua aplicação prática: o Institute for Advanced Study.

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Em Princeton, o IAS é a alma mater de alguns dos cientistas mais brilhantes do século 20: Einstein, Oppenheimer, Gödel, Panofsky e outros… Esse impressionante panteão é o resultado de uma extraordinária e ousada estratégia: convencer investidores a financiar uma instituição científica que desconectava propositalmente a ciência das necessidades econômicas em uma época de crise soava como uma proposta indecente. Mas Flexner não tinha nada de dândi e inconsequente. Era um visionário e acreditava que a ciência não devia ser restringida por nenhuma força utilitarista.

Tinha um agudo discernimento de como as coisas do intelecto se articulam. O que faz os cientistas pesquisarem? Uma necessidade inexorável e ancestral de compreender o mundo e que antecede qualquer noção de economia. Essa busca pelo conhecimento nos constitui; é o que nos dá sentido: uma procura implacável pela beleza que faz com que os pintores pintem, que escritores escrevam e os cientistas compreendam a natureza. Esse é o motor, a melhor solução que encontramos para a difícil equação de uma existência limitada. É isso que tira o sono dos cientistas. Não a economia nem a tecnologia. Conhecimento, conhecimento puro; mesmo que seja “inútil”.

Segundo Fexner, se o IAS “fugir da busca pelo útil, as mentes dos pesquisadores serão liberadas, eles estarão livres para se aproveitar de surpresas, e algum dia se perceberá que uma descoberta inesperada, que aparentemente não levará a nenhum lugar, se tornará uma ligação indispensável em uma longa e complexa cadeia que pode abrir novos mundos na teoria e na prática”.

Criar um lugar onde os cientistas pudessem contar ao mundo suas verdadeiras perguntas libertou suas forças criativas de forma inigualável até os dias atuais. A lista de avanços científicos feitos no IAS é longa demais para ser mencionada aqui, porém praticamente nenhum era utilitarista. No entanto o progresso tecnológico que deles se derivou é incomensurável: o mundo seria muito mais pobre se Flexner tivesse desistido de criar o IAS.

Fico abismado diante do fato de que, mesmo depois dessa demonstração magistral de que a livre busca pelo conhecimento é o único primeiro passo possível da cadeia ciência-tecnologia-produtos-riqueza, muitas instituições científicas no mundo e no Brasil escolhem dar uma forte ênfase à tradução de ciência em aplicação prática. Isso é crítico porque deixa pouco espaço para que os pesquisadores se atrevam a serem curiosos – livre e audaciosamente curiosos.

Criado em 2017 com o objetivo de promover a pesquisa científica fundamental, não aplicada, e divulgar ciência de qualidade, o Instituto Serrapilheira deseja criar seu espaço no Brasil. É uma nova instituição, privada e sem fins lucrativos. Embora não possamos nos comparar ao IAS, o legado de Flexner é uma grande inspiração para nós.

Ao contar a Robbert Dijkgraaf – atual diretor-presidente do IAS – nossas metas e o foco em pesquisa básica (e bela), em uma visita em novembro de 2018, senti-me profundamente tranquilizado ao vê-lo sorrir, apertar minha mão calorosamente e dizer, olhando firmemente nos meus olhos: “Somos poucos, mas estamos certos. Por favor, continue provocando os melhores jovens cientistas brasileiros a fazerem o tipo de pergunta científica que Isaac Newton, Galileo, Charles Darwin, Albert Einstein, Sydney Brenner, François Jacob, Henri Poincaré, Ilya Prigogine ou Erwin Schrödinger teriam feito”. Em seguida, me ofereceu gentilmente o livro de Flexner, “The usefulness of useless knowledge”.

Hugo Aguilaniu é geneticista e diretor-presidente do Instituto Serrapilheira

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