AIRI'S DIARY ... 002

AIRI'S DIARY ... 002

tw: prostituição, age gap.
flashback 251030 (Roppongi, Japão)

O espelho do hotel em Roppongi entregava o que a agência exigia: uma mulher impecável. O vestido de grife moldava o corpo esculpido para as fotos, a maquiagem escondia qualquer vestígio de cansaço e a postura era de uma calma absoluta. Por fora, Airi parecia plena, mas por dentro, recolhia os cacos de uma dignidade que havia se estilhaçado antes mesmo de entrar no carro preto que a trouxera até ali.

Ela sabia o que significavam os eufemismos da agência. O tal networking era apenas um nome polido e recusar o convite do investidor estrangeiro significaria o fim de sua carreira no Japão. Sem escolha, ela caminhou pelo carpete espesso da suíte de luxo, sustentando o sorriso que treinou a vida inteira para usar.

Sr. Zhou a esperava perto da janela panorâmica, observando o mar de luzes de Tóquio. Era um homem imponente com seus setenta e tanto anos, mas seus gestos tinham uma lentidão polida. Ao notar a aproximação dela, ofereceu um sorriso cortês.

— Airi. É um prazer finalmente conhecê-la. — disse ele, com uma suavidade inesperada.

— O prazer é meu, Sr. Zhou. — respondeu ela, curvando-se no ângulo exato ditado pela etiqueta.

Sentaram-se no sofá de couro enquanto o champanhe era servido. Sem rodeios, ele explicou que a havia notado em um evento em Chiba e exigido o encontro. Airi manteve o olhar atento, blindando-se para o momento em que a máscara de cavalheiro cairia. No entanto, Sr. Zhou apenas tomou um gole de sua bebida e a encarou com uma franqueza quase clínica.

— Não vou lhe fazer promessas vazias, Airi. Você e eu sabemos que sua agência logo a descartará. Para os padrões deles, você já está velha para modelar. O mercado japonês não tem piedade da idade.

Aquelas palavras doeram porque eram verdadeiras. Airi engoliu em seco, mantendo a voz firme. — O que o senhor propõe, então?

— Quero levá-la para Shanghai. Você será minha acompanhante em viagens, jantares e recepções oficiais. Em troca, terá uma vida confortável com uma casa só para você. Mas exijo discrição absoluta. Sua presença pública será rigorosamente vigiada. Nada de expor sua vida privada, suas localizações reais ou de mencionar, sugerir, minha existência. Você não falará sobre mim, sobre os meus negócios ou sobre nossa rotina com ninguém de fora. — Ele se inclinou sutilmente. — E sejamos adultos. Não vou forçá-la a nada agora. Mas tudo tem um preço. Se em algum momento eu desejar o seu toque, espero que compreenda que ceder será apenas a justa compensação pela vida que lhe darei.

Airi sentiu o peso da armadilha. Não havia trégua, apenas uma cobrança adiada sob regras de um silêncio sufocante.

— Eu agradeço, Sr. Zhou... mas não posso aceitar — sussurrou ela. — Minha mãe está gravemente doente em um hospital aqui em Tóquio. Os tratamentos são caros. Não posso abandoná-la.

O Sr. Zhou sorriu com uma paciência quase paternal.

— Eu sei sobre sua mãe. Como parte do nosso acordo, transferirei ela para a melhor clínica privada de Tóquio, com todos os custos pagos por mim. Você poderá visitá-la sob minha supervisão e de forma totalmente confidencial. Eu cuido dela, e você cuida de mim. Mas lembre-se: se você quebrar minhas regras de silêncio ou demonstrar descontentamento em público, o tratamento dela cessa no mesmo dia.

Antes que ela pudesse desabar, as primeiras notas de uma canção de city pop. Por um momento Airi travou, ela reconhecia aquela intro como quem reconhece o cheiro de seu prato favorito. Era a música que dançava com a mãe na infância, um ironia lastimável.

Os acordes começaram a flutuar pelo quarto, misturando-se à paisagem noturna. O chinês se levantou e estendeu a mão. — Que tal uma dança, Airi? Enquanto processa nosso destino.

Sem dizer palavra, ela aceitou o toque dele. Ele a conduzira até o centro do salão. Eles começaram a deslizar no ritmo da melodia, mantendo uma distância formal, mas sob o controle absoluto dele.

— O senhor planejou tudo. — sussurrou ela, olhando-o nos olhos enquanto giravam diante da janela de vidro.

— Apenas ofereci a única saída que lhe resta. — ele respondeu suavemente. — Sorria, minha querida. A partir de hoje, seu papel é ser perfeita e silenciosa.

O coração dela apertou. As correntes agora eram feitas de ouro e do próprio ar que sua mãe respirava no hospital.

— E se eu aceitar... o senhor será paciente comigo quando o... momento chegar?

Ele apertou os dedos dela com uma firmeza possessiva.

— Sou sempre muito paciente com meus investimentos. Mas eles sempre retornam para mim. O pacto está selado?

— Sim. — ela consentiu, entregando o resto de sua liberdade.

O Sr. Zhou assentiu, satisfeito. Ele diminuiu o espaço entre os dois, inclinando-se perto do ouvido dela.

— Um novo começo exige um novo nome. Airi morre em Tóquio esta noite. Em Shanghai, para o mundo e para mim... seu nome será Iris.

O sussurro soou como o clique de uma fechadura se trancando. A dança continuou. A música corria tragicamente alegre e vibrante na superfície, mas carregava uma melancolia profunda em seus arranjos. Nos braços do Sr. Zhou, a nova Iris usou o ritmo como seu último escudo. Ela sorriu de forma sutil e serena, mascarando a tristeza que a despedaçava por dentro. Ela prometeu a si que enquanto aquela música tocasse, ninguém seria capaz de ver suas rachaduras.

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