A desgraça de Rabo de Peixe

A desgraça de Rabo de Peixe

TANTO

Era junho de 2001.

O veleiro Tudo, de 14 metros de comprimento, cruzava o Atlântico vindo da Venezuela, com destino às Ilhas Baleares, na Espanha, quando uma forte rajada de vento destruiu sua vela principal e o leme.

Daquela forma, seria impossível seguir navegando.

Mas a situação não era de todo desesperadora.

Felizmente o acidente ocorreu muito perto dos Açores, onde o barco poderia ser reparado.

Mas, infelizmente, o veleiro transportava cocaína, em quantidade até hoje não determinada (mas estimada em 1,5 tonelada). Que fazer nessa situação, em que suas vidas dependem de aportar?

Que fazer com uma carga avaliada, à época, em 150 milhões de euros?

Os traficantes decidiram: parte da carga seria afundada em local mais raso, amarrada a pesos, para ser resgatada depois.

E outra parte seria escondida em uma caverna, na Ilha de São Miguel, uma das 9 ilhas que compõe o arquipélago.

Assim, a carga estaria a salvo, o veleiro poderia ser reparado e ninguém corria risco de ser preso.

Mas as coisas não aconteceram bem assim.

Não demorou para que a maré arrastasse a cocaína afundada na orla dos Açores, fazendo-a flutuar por milhas de distância até as praias da Ilha de São Miguel.

Da mesma forma, a carga tão bem escondida em terra firme foi logo encontrada por pescadores.

Aí, a loucura aconteceu.

A Ilha de São Miguel, como diversas áreas dos Açores, está dentre as mais pobres de Portugal. Ali, ter expectativas é algo quase impossível. A ilha não apresenta diversão nem caminhos capazes de dar esperança a seus moradores. O tédio, a miséria e quietude definem o local.

No meio desse marasmo sem grandes novidades, muitas pessoas matam o tempo entre copos de bebida e tragadas de maconha.

Imagine, então, o que aconteceu quando tijolos de cocaína começaram a aparecer nas praias do local - ou foram descobertos em cavernas entocadas.

Adendo: a pureza da cocaína era absurda, de 80%.Conforme o DENARC/PR, a cocaína usualmente vendida tem pureza que varia entre 5% a 50%, e ainda permite misturas.

Imaginem o que forte era a droga que surgiu principalmente na localidade de Rabo de Peixe. Os relatos são assustadores.

Eram homens, mulheres e crianças vasculhando as pedras. As vezes, famílias inteiras. Havia idosos, mulheres de bobs no cabelo e até funcionários públicos.

E era tanta cocaína que muitos nem sabiam o que fazer.

Teve gente que empanou peixe com aquele pó parecido com farinha.

Teve gente que comprou cocaína para fazer marcação em campo de futebol.

Teve gente que misturava colheres da droga ao café ou a bebidas.

Um copo de cerveja, cheio de cocaína, era vendido por 25 Euros.

E a loucura continuou no consumo desenfreado da droga.

A cocaína já é, por si, uma droga cara e restrita e círculos de mais grana. Em uma localidade pobre, como Rabo de Peixe, acostumada somente à maconha e, quando muito, à heroína, a cocaína com 80% de pureza caiu como bomba.

Em pouco tempo, pessoas de todas as idades estavam se drogando com aquele pó branco de altíssimo poder, o gerou um caos absurdo na cidade, de todas as formas:

Quem tinha o pó, vendia caro. Quem não tinha mais, começou a praticar pequenos crimes para poder comprar.

Três semanas após a chegada da droga, foram contabilizadas 20 mortes por overdose, mais dezenas de internamentos graves por conta de intoxicação.

As autoridades, perdidas no meio do furacão, buscavam dar apoio à população e entender o caos, pressionadas a dar respostas.

A polícia buscava apreender toda a droga que ainda houvesse, enquanto buscava os culpados.

Em pouco tempo foram recolhidos 400 quilos de cocaína - de um total de 500 kg, conforme afirma a polícia (mas o veleiro comportaria quase 3 toneladas). Certo é que menos de 100 kg de cocaína, mesmo naquele grau de pureza, seriam incapazes de criar o caos social que paralisou os Açores, especialmente Rabo de Peixe.

Por outro lado, as investigações levaram a polícia a um veleiro que estava em reparos no porto da Ilha. Era justamente o Tudo, onde foi preso uma única pessoa, o italiano Antoni Quinzi, piloto do veleiro.

Para seu azar, dentro do barco foi encontrado um tijolo de cocaína idêntico aos demais. Foi o que bastou para sua prisão. Quinzi, contudo, jamais colaborou com as investigações.

Resumo da história: A polícia portuguesa afirma que eram 500 kg, que aprendeu 400 kg, mas é quase certo que o barco transportava quase 3t de cocaína com pureza de 80%, o que explica a destruição da vila de Rabo de peixe e diversos outros locais nos Açores.

A invasão daquela cocaína representou quase a destruição de diversas localidades dos Açores, sempre, em especial, Rabo de Peixe.

Para se ter uma ideia, em 2001, quando a droga chegou, os Açores eram o local com menos consumo de drogas em Portugal. Em 2017 passaram ao 1º local.

Hoje, já não é a cocaína a principal droga na ilha, até porque é cara para os bolsos dos açorianos.

O que grassa aquelas terras é a heroína, muito mais barata, e que causa mais dependência física e psicológica ao usuário.

Mas, fato: os viciados de 2001 consomem qualquer coisa.20 anos após a chegada da droga, o Governo Português ainda distribui metadona nos Açores, como política pública de saúde, forma de minimizar os efeitos do uso de cocaína da forma que ocorreu.

Ou é isso, ou os problemas se agravam, pois ainda há dependentes.

Em Rabo de Peixe, por exemplo, com 7 mil habitantes, são cerca de 800 usuários cadastrados para receber metadona regularmente.

Quem tinha dinheiro foi se tratar no continente.

Quem não tinha, amargou restar nos Açores, sofrendo as consequências de 2001. O único preso, nesse incrível e brutal caso, que praticamente destruiu qualquer futuro breve de uma cidade inteira, foi Antoni Quinzi. As desgraças seguem em Rabo de Peixe e, de certa forma, em todos os Açores - que segue na rota de tráfico de drogas para a Europa.

Fim

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