A Tecnologia e o Das Man
Helius GabrielA fim de uma melhor compreensão sobre o que caracteriza uma existência humana autêntica e inautêntica, é essencial nos atermos aos importantes conceitos de “Dasein” e “Das Man”, empregados pelo filósofo Martin Heidegger em suas obras. Dasein, por vezes traduzido para o português como “Ser-aí” ou “presença”, se refere à existência humana autêntica, que se encontra em interação com o mundo; “O Dasein é o ente que, sendo, des-cobre, revela o Ser (o quê e como algo é) a partir de sua condição existencial. O Dasein é o ente para o qual o Ser se mostra. Em virtude de sua compreensão do Ser, ainda que informal, vaga, o ser humano é ontológico.” (DUTRA, 2014, p. 107). A estrutura existencial do Dasein é caracterizada pelo constante formar-se. O Ser-aí nunca é algo pronto, sólido, mas sim algo marcado pelo projeto e transcendência, pela consciência das diversas possibilidades do Ser.
A realização do Dasein só é possível mediante um profundo contato com a natureza humana, com o que de fato se encontra no âmago desnudo do Ser. Segundo Heidegger, dois acontecimentos existenciais são importantes para a consciência do Dasein: a angústia e a reconhecimento da finitude. Com relação à angústia: “Na presença, a angústia revela o ser para o poder-ser mais próprio, ou seja, o ser-livre para a liberdade de escolher e acolher a si mesma. A angústia arrasta a presença para o ser-livre para…, para a propriedade de seu ser enquanto possibilidade (…). A presença como ser-no-mundo entrega-se, ao mesmo tempo, à responsabilidade desse ser (HEIDEGGER, 1927/2006, p. 254).”
Já a consciência da inevitabilidade da morte é precisamente o que totaliza o Dasein: “Em Ser e Tempo, a morte como ser-para-o-fim é vista como a possibilidade mais própria do Dasein, pois é ele mesmo que dá a si essa possibilidade. A morte, como possibilidade própria, não está nas relações do ser-com (“preocupação” com os outros), nem no lidar com os entes não humanos (“ocupação” com as coisas). A morte é de si mesmo para si mesmo. Ela é singular como possibilidade para o Dasein e singulariza o Dasein como possibilidade irremissível de si mesmo.” (DUTRA; ROEHE, 2014, p. 112).
No contrário do Dasein, está o Das Man, que é caracterizado como um estado de decadência e inautenticidade do Ser, e o “pólo objetivo desta decadência é o mundo artificial construído pelo homem, o mundo transformado pela tecnologia humana.” (GONÇALVES JR., 2005, p. 35). O Das Man é, portanto, a alienação do seu próprio Ser, é um estado em que o indivíduo é dissolvido na massificação da sociedade, sem qualquer consciência ontológica de si mesmo.
A presente época, com o uso exponencial de ferramentas de inteligência artificial, é precisamente a época em que marca o início do total esquecimento do Ser. O ser humano do futuro lerá textos escritos por IA, consumirá arte gerada por IA, ouvirá músicas produzidas por IA, assistirá filmes produzidos por IA e se relacionará afetivamente com uma IA. Fazendo isso, o indivíduo usará um aparato da techne como um mediador entre ele e o mundo (nas suas dimensões linguísticas, artísticas e sociais), havendo assim uma terceirização da experienciação do Ser-aí no mundo, do qual o desfecho será uma existência inautêntica. O humano do futuro será o Das Man por excelência.
REFERÊNCIAS
DUTRA, Elza; Roehe, Marcelo Vial. Dasein, o entendimento de Heidegger sobre o modo de ser humano. Universidade Federal do Rio Grande do Norte: Natal, 2014.
GONÇALVES, JR. F. A noção de inautenticidade em Heidegger e Sartre. Reflexão: Campinas, 2005.
HEIDEGGER, M. (2006). Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: São Francisco. (Originalmente publicado em 1927)