25 anos de Eldorado

25 anos de Eldorado

TANTO

Era março de 1996 quando 3.500 famílias de sem-terra ocuparam a fazenda Macaxeira, completamente improdutiva, perto de Curionópolis, interior do Pará.

Esse grupo de gente pobre, quase todos pretos, buscava a desapropriação da terra para plantar e sobreviver. 

O nome Curionópolis é homenagem ao Major Curió, militar, político e figura influentes da região. Ele teve importante participação no "combate" à Guerrilha do Araguaia.

Desde então, Curió se tornou espécie de dono da região. Muito se fala de crimes e torturas em seu nome. 


Foto do Major Curió muito b...

Curionópolis também abriga Serra Pelada, uma das maiores fontes de miséria, desigualdade e conflitos que esse país já viu.

A região era verdadeiro barril de pólvora pronto a explodir, local comandado por fazendeiros, garimpeiros, pistoleiros e corruptos. 

Foi nesse local que o MST focou esforços, pois era preciso enfrentar a região.

Forçar a INCRA a desapropriar terras no local era forma de fazer o poder pública olhar pela região e suas mazelas.

Acontece que, após três meses de medos, nada aconteceu.

Diante da cegueira institucional, um grupo de 1.500 sem-terra resolveu marchar da fazenda Macaxeira até Belém, com paradas em Eldorado do Carajás e Marabá.

A ideia era forçar o Estado a olhar por aquelas pessoas e agir, mas a história foi cruel. 

A marcha acampou num local chamado Curva do S, próximo a Eldorado.

Sob a alegação de que estariam bloqueando a rodovia PA-150, o Governador do estado, na época, Almir Gabriel, mandou a PM para desobstruir o local e pacificar a marcha.

Acontece que, por trás dos panos, já cansados daquela gente que insistia em se revoltar e se rebelar, e que não aceitava pacificamente a "ordem natural das coisas", diversos fazendeiros da região se reuniram para dar outro rumo à história.

Os donos do poder, de vidas e mortes, fizeram uma coleta entre diversas pessoas da região e, após juntar uma soma considerável, teria pagado propina à PMs para que o destino fosse outro.

Ao invés de desobstruir e pacificar, que houvesse uma matança dos líderes do MST.
E foi isso que aconteceu:

Um massacre onde foram assassinados 19 sem-terra, dos piores episódios da história do Pará e do Brasil, que ficou conhecido como vergonha no mundo todo e que hoje, 17 de abril, completa 25 anos. 

Pela manhã do dia 17/04/96 o grupo recomeçou a marcha ocupando parte da PA-150.

Às 3 da tarde, por trás dos sem-terra, chegaram 68 PMs vindos de Parauapebas, impedindo fuga.

Às 4 da tarde, 200 PMs vindo de Marabá bloquearam o avanço da marcha.
Primeiro, a PM tentou desmobilizar os sem-terra com bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral.

Só que os sem-terra revidaram, se defendendo, jogando paus e pedras, armas que tinham.

Sob a alegação de confronto, paus e pedras foram rechaçados com balas. 

Atirando para matar, durante 2 horas a PM encurralou os sem-terra no meio da Curva do S e promoveu uma carnificina.

19 sem-terra morreram no local - vários deles com tiros na testa -, mais 2 no hospital e 51 foram feridos.

Do lado dos PMs somente ferimentos leves. 


Frame de um vídeo da Tv Lib...

Grande parte dos sem-terra conseguiu escapar pelas laterais da PA-150 e, felizmente, não foram perseguidos pela PM.

Na pista da rodovia, marcas de sangue e morte se espalhavam enquanto pessoas em prantos, desesperadas, procuravam parentes desaparecidos. 

Sem-terra carregam um caixão.


Mulher chora, carregando um...

E parte do Brasil assistia, perplexa, a miséria do campo e a violência do latifundiário nas filmagens da TV Liberal e nas imagens que ganharam o mundo.

O Brasil era dito em todas as línguas, ligado a revolta e indignação. 


Capa do jornal O Globo. A m...


Capa do jornal O Estado de ...


No dia, o comandante da PM em Marabá, CEL. Mário Pantoja, foi afastado e decretada sua prisão domiciliar.

Na noite, o então ministro da Agricultura, Andrade Vieira, encarregado da reforma agrária, pediu demissão.

Nada disso, entretanto, traria os mortos de volta. 

A região de Curionópolis, Eldorado e Marabá, e todo seu entorno, segue sendo local de luta e violência, onde ainda predomina o latifúndio e o povo que exige é visto como problema.

O Poder Público, apesar de todo seu esforço, segue distante e ausente. 

Apesar das mortes e da repercussão, a impunidade marcou os processos judiciais que buscava dar resposta aos crimes.

Dos 155 PMs julgados, 153 foram absolvidos.

Somente Pantoja e José Maria de Oliveira, comandantes da operação, foram condenados.

Contudo, jamais foram presos. 

E a violência segue dando rumo aos ânimos: em 07/09/96 foi inaugurado em Marabá o Monumento Eldorado Memória, projetado e doado por Oscar Niemeyer em alusão ao Massacre.

Contudo, 15 dias depois o monumento foi destruído a mando de latifundiários e grupos conservadores da região. 

Em 17/04/99, cerca de 800 sobreviventes ergueram outro marco, chamado Monumento das Castanheiras Mortas.

Foram 19 castanheiras, uma para cada morto, idealizados pelo dramaturgo anglo-brasileiro Dan Baron Cohen, ao lado da Curva do S, local considerado sagrado para o MST. 

Mas o Monumento das Castanheiras Mortas perece no tempo, sem manutenção, assim como pereceram os homens que marchavam pelo direito à terra e subsistência, mortos na Curva do S.

Apenas 7 das 19 castanheiras permaneciam de pé em 2017, depois de sobreviver à raiva dos homens.
A fazenda Macaxeira, que pertencia a um dos mandantes do crime, foi desapropriada.

Deu lugar à vila 17 de Abril. Lá, viviam, em 1999, 690 famílias, que receberam 25 hectares para plantio, mais um terreno na vila de 20 por 30 metros para construírem suas casas.

Persistem. 

Não gosto muito de escrever sobre o Massacre.


Na época, lembro da dor do povo, principalmente daqueles que entendem a dor do povo desse Pará. Houve muito choro pelos sem-terra, assim com ódio.

Mas, me forço a escrever, porque é preciso conhecer. 


E o 17 de abril se tornou o Dia Mundial da Luta pela Terra e não pode ser uma data vazia, em que se fala do Massacre sem se entender o Massacre.

A Curva do S ainda está aí, na luta diária do @MST_Oficial, na violência no campo e na miséria que percorre esse país.

Apesar de tudo o Movimento dos Sem-Terra floresce, doando alimentos, arrancando sorriso e dando esperança de que, um dia, poderemos ter um país mais humano.


Fim.

Foto dos caixões dos sem-te...
Foto dos caixões dos mortos...
Foto do Monumento das Casta...
O Monumento Eldorado Memóri...
Covas abertas, ladeadas pel...
Mapa da região de Eldorado.
Coronel Pantoja durante um ...


Capa do Jornal O Globo. A m...


Mulher chorando, sendo ampa...


Frame de um vídeo da Tv Lib...


Cartum de Latuffe, mostrand...


Foto dos corpos do Massacre...


Foto de Almir Gabriel, gove...


Foto de uma cruz de madeira.


Foto em grande ângulo da Se...


Foto de um grupo de sem-ter...


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