02, show must go on.
Não havia lugar melhor que o lar. É o que diziam, certo? Num momento como aquele, Melbourne era o melhor lugar para se estar – tudo era familiar. O tempo, as roupas, as músicas que tocavam nas rádios, a comida, as pessoas… O aeroporto de Melbourne tinha o mesmo cheiro de sempre. Café superfaturado e ar condicionado velho. A sinalização continuava tão confusa quanto e a praça de alimentação ainda era um deserto.
Não havia nada para ver quando chegou, tampouco para mostrar à amiga quando foi a vez dela. Ainda assim, Liam se pegou sorrindo para Yeonseo enquanto pegava as malas, como se tudo estivesse perfeitamente bem, como se a semana anterior não tivesse acontecido. Era surpreendentemente fácil fingir que tudo que um dia fora seu, ainda era.
Yeonseo era um poço de animação e isso era fato. Até o jeito que ela exibia um bico por um motivo completamente descabido o deixaria feliz – ela lembrava seu melhor amigo nessas horas. E enquanto ela reclamava da diferença dos voos, ou do tempo da viagem, ou da fome e de odiar comida de avião, Liam acenava, concordava, acrescentava comentários leves. Pensava no contraste de sua recepção no dia anterior, quando a mãe – tão loira quanto ele –, era quem o aguardava: os braços abertos se tornaram um abraço apertado e Liam sentiu o gelo familiar das mãos dela contra sua nuca, veio um alívio. Era um lembrete de que havia um lugar onde ele não precisava ser nada além de filho.
Agora era só ele e Yeonseo e, apesar de a ter abraçado, nem de longe era um tão caloroso quanto o que só sua mãe sabia dar. Muito menos quando mal lhe restavam forças para existir naquele momento; mas ele precisava seguir e o motorista os aguardava no estacionamento.
Sua mente ia e vinha. No dia anterior sua mãe havia o acusado de “estar muito magro e com olheiras”. Ela deu um sorriso sacana quando perguntou se Erin não estava o alimentando direito – seu namorado –, ela dizia. Foi quando Liam comentou que Erin havia terminado com ele, simples assim.
Hyesun se surpreendeu e obviamente perguntou o que havia acontecido. Liam culpou o fim do semestre por sua cara abatida e disse que “estava tudo bem”, o que definitivamente não a convenceu. Mas Hyesun não insistiu, ela nunca insistia quando Liam não queria falar; apenas o puxava para frente, o guiava, e o show continuava.
***
E continuou nos dias seguintes.
Liam acordava cedo, não porque queria, mas porque o corpo já estava treinado para não parar. Isso se intensificava nos dias difíceis, afinal, era o que havia aprendido. Primeiro veio o café da manhã com a família e, no dia seguinte, o café da manhã com Yeonseo e a mãe. Conversavam sobre a viagem, sobre os lugares que visitariam, sobre as férias que ele deveria estar aproveitando. Ele ria, planejava, existia.
Ele havia existido assim nos últimos oito dias. Acordava, empurrava seu corpo e ia. Nos momentos de silêncio, porém, as ausências passavam a doer como uma ferida aberta. O banho, os corredores vazios, os momentos antes de dormir… todos eram cenários pavorosos, principalmente quando seu lar, Melbourne, estava repleto de memórias de Erin, que antes também era seu lar.
Oito dias. Que tudo havia desmoronado, que tudo havia acontecido; as expressões de medo e de rejeição que não voltadas a outro alguém, mas a si. Havia passado tão rápido, esses oito dias – escorreram por suas mãos –, assim como seu papel de porto seguro, como o conforto de seu abraço, como seu esforço para estar lá quando mais ninguém estivesse.
Nada disso importava agora, importava?
“Precisei ouvir ele dizendo que vocês não são tão diferentes assim”. Talvez não fossem. Mas eram, não eram? Era uma comparação esdrúxula, não era? Quem sabe não.
Sabia que não queria apenas proteger Erin. Mas queria controlá-lo? Queria manipulá-lo, como ele temia? O medo que exibia em seus olhos se justificava? Talvez sim, talvez não. Liam também havia sido controlador, mesmo sem querer ser. E o pior é que sabia: diante daquela situação, seu corpo se moveria para fazer o mesmo. Apagaria aquela mensagem e ficaria em silêncio de novo, porque quando se tratava de Mikael seu medo falava bem mais alto que sua confiança em si ou em qualquer outro. O irônico é que era justamente seu medo o responsável por trazê-lo até essa situação.
Ao mesmo tempo sentia-se não injustiçado. Não podia errar? Ter medo? ceder ao impulso mesquinho de evitar um risco? Todos os seus muitos outros anos como melhor amigo, seus dias como namorado não serviam para contrabalancear o momento onde tudo escorreu por suas mãos? Era a primeira vez que gritava de volta, que batia em uma porta com força, que não se reconhecia numa memória.
Liam havia sido tantas coisas nos últimos anos, por que precisava ser justamente aquela? A que desperta o medo de ser manipulado, de ser aprisionado, de ser amado da maneira errada?
Sua mãe dizia que o show tinha que continuar, que Liam deveria dominar suas narrativas. Dê o que eles querem para ter o que você quer, e se havia alguém que o garoto sempre soube querer, esse alguém era Erin. E se sabia algo sobre ele, era que não poderia deixar o tempo agir em sua indiferença.
Ele pegou o telefone. Agora estava em desvantagem porque enquanto ele estava na familiar Melbourne, Erin estava em Seul, mesmo lugar, por sinal, que Mikael estava. Liam discou o número com os dedos trêmulos, o coração batendo tão forte que ele conseguia ouvir o sangue nos ouvidos; não era para o melhor amigo e namorado que ligava, porque parte sua temia ser ruim para ele. Mas a outra não conseguia deixá-lo ir, e foi essa que ligou para os pais dele.
A mãe de Erin atendeu. Sua a voz estava calorosa como sempre. Familiar e doce, como apenas mães sabiam fazer. Então Liam fez a pergunta que vinha ensaiando há horas: “Erin vai passar as férias em Melbourne também?”
Um silêncio preencheu aquela ligação; um que durou tempo demais. Ele devia ter pensado nisso, se estivesse pensando direito. Era óbvio que Hani estranharia a pergunta, quando geralmente Liam sabia mais sobre a vida de Erin do que ele próprio. E o que se sucedeu da ligação foi apenas mais frustração se empilhando na que existia, para ambos os lados.
Erin não havia contado sobre o término para os pais. Na verdade, nem sobre o começo, já que eles haviam ficado sabendo pelas redes sociais. Liam apertou o telefone com tanta força que os dedos doeram; ele sabia que Haerin costumava fazer isso quando o assunto era seu ex. Ele escondera o relacionamento abusivo, o sofrimento, o medo. Agora Liam estava no mesmo lugar, enterrado num silêncio, excluído da vida que ele achava que compartilhavam.
— Eu sinto muito – ele disse, e a frase saiu tão pequena que mal parecia sua. — Eu não devia ter ligado. Eu só... queria saber se ele viria.
A mãe de Erin disse algo sobre conversar com o filho, sobre ligar depois. Liam desligou antes de ouvir o resto.
***
A briga veio horas depois, por mensagem. Erin estava furioso, e Liam o conhecia o suficiente para saber pelo jeito que escrevia. Como Liam ousava falar com seus pais sem sua autorização? Liam nunca havia precisado de uma; a casa de Haerin sempre fora um quintal da sua, ao menos… era. Ele deveria respeitar a amizade que um dia tiveram.
E o loiro tinha um pouquinho de pena de sua amiga Yeonseo. Ela estava ali, animada como sempre, e ele tentando ser um bom anfitrião como sempre. Mas seus olhos simplesmente não desgrudavam da tela do celular. Enquanto conversavam sobre um dorama qualquer, algo dentro de si se quebrava. Os lábios curvaram num sorriso de puro sarcasmo enquanto repassava todas as vezes em que havia afirmado que não tinha medo de namorar Haerin porque sabia que a amizade de ambos não se abalaria por nada. Idiotice, mas o show…
***
O show continuou. Liam tinha treinos e uma visita para se focar. Seus amigos para responder. Toda vez que se lembrava de anos atrás, de sua dor e dos mesmos nomes envolvidos, também se lembrava automaticamente da reação de sua mãe. “I'll top the bill, I'll overkill. I have to find the will to carry on with the show”.
Liam repetiu em todas as conversas sobre investimento com seu pai, em todos os passeios com sua mãe e Yeonseo, de City Highlights Express Cruise ao tour de Vinhos em Yarra Valley, do trem de Puffing Billy e Phillip Island ao Metaworld, nos seus treinos, nos momentos com seus amigos antigos. Ele seguia e o luto crescia como uma maré.
Cada pequena coisa o irritava; O barulho do trânsito, o jeito que Yeonseo fazia seu bico adorável e o lembrava do que não queria, a luz do sol que entrava pela janela, a voz dos velhos amigos, o som das sílabas se juntando para formar a palavra “Erin Miller”. Tudo. Liam segurava a irritação como quem segura uma xícara quente demais, os dedos queimando, mas se recusando a largar.
À noite, ele sonhava. Com a adolescência, com os amigos, com a vida quando era mais simples. Erin ria de algo que Liam havia dito; alguma uma mentira boba, uma história absurda sobre um golden retriever que nunca existiu. No sonho, tudo estava bem. No sonho, Erin ainda olhava para ele como se ele fosse o único porto seguro.
O rosto acordou molhado, mas Liam não tinha certeza se havia chorado. De qualquer forma era a hora do seu treino, e naquela hora Taekwondo parecia um alívio.
O professor particular era um veterano, uns 6 anos mais velho e que frequentava a mesma academia que Liam quando menor. Já o amigo que treinava com ele era um colega de infância, alguém com quem Liam sempre se divertia. No treino os movimentos, os golpes e o suor eram familiares; havia sempre algo prazeroso em sentir-se no controle do próprio corpo, em mover-se e conquistar de acordo com as expectativas.
A aula havia terminado e Liam estava se enxugando com a toalha quando o amigo se aproximou, o sorriso provocador no rosto. Ele sempre fazia alguma piadinha e Liam ria da maioria. O problema é que aquela veio acompanhada daquele conjunto de sílabas… “E-rin-Mil-ler”.
Ele deveria esperar. O namoro – e a essa altura, o término – eram bem públicos. Haerin era um garoto performático; o que ele sentia, sentia muito e fazia questão de mostrar. Então se haviam terminado, era um espetáculo digno do trocadilho “We’re f(o)re(ver)”. Era óbvio que doía ver, mas Liam nunca havia maldado ou esperado algo diferente. Assim como normalmente não levaria a sério qualquer piadinha feita com isso. Pelos céus, ele sequer lembrava qual diabo de piada havia sido feita.
Acontece que dessa vez Liam sentiu algo se romper dentro dele: uma barragem que ele vinha segurando há dias, semanas, talvez anos. Imagens do que foi, do que poderia ser e do que seria se misturavam em sua cabeça; de repente o “tive que ouvir que vocês são iguais” se tornava um “você é igual a ele”. O “sei que você consegue, basta se esforçar” um “Você nunca vai conseguir” seguido por “O tempo escorre em suas mãos”, “o show tem que continuar”.
Ele avançou. O amigo não esperava, então o primeiro soco pegou no queixo. Então tudo virou confusão; braços, pernas, puxões, empurrões, xingamentos, o som dos corpos caindo no chão e nem isso parando os movimentos. Jinsun não pensou ou sentiu, apenas continuou a bater cada golpe um eco de tudo que ele não conseguia dizer, tudo que ele não conseguia sentir, tudo que ele não conseguia ser.
— Para! – Uma voz gritou; a do professor que retornava para a sala, na verdade. O amigo estava tentando se defender, o rosto já inchado. Não que o de Liam estivesse melhor também — Liam, PARA!
O que o iria incomoda-lo especialmente mais tarde, era o fato de que nem assim parou. Não até que o professor o agarrasse pelos ombros e o jogasse para trás, com a força de quem havia lidado com isso antes. Liam caiu no chão, o peito ofegante e os punhos doloridos; então ele olhou para o amigo.
O rosto do outro estava ensanguentado. Um corte na sobrancelha. O olho já começando a inchar; O olhar de alguém que não entende o que aconteceu, mas que também havia entrado no trem da raiva, só não com o mesmo fôlego.
Agora estava tonto. Os xingamentos e perguntas do amigo se misturavam com os questionamentos surpresos do professor, que se adicionavam aos próprios pensamentos e interrogações. Liam já estava se levantando, correndo, as pernas se movendo antes que o cérebro pudesse processar. Ele ouviu o professor chamando seu nome, mas não parou.
Saiu do ginásio, atravessou a rua sem olhar, entrou no primeiro beco que encontrou. Continuou andando sem saber exatamente para onde, e a cada passo que dava percebia uma coisa nova; seu rosto também estava sangrando, seus pés descalços acumulavam pequenas pedrinhas e outros detritos do chão. O Dobok entreaberto e meio sujo, a faixa pendurada, porra, ele estava descalço.
Ele estava diante de uma praça familiar e foi ali mesmo que parou. Os pés foram embrenhando na areia das crianças até que Liam parou numa pedra, num meio fio, não fazia ideia do que era aquilo mas quem se importava? O show tinha que continuar, mas que porra de show era aquele?
Veio um som feio, rouco, que vinha de algum lugar tão fundo que Liam nem sabia que existia. Os cotovelos apoiaram nos joelhos e as mãos, sujas da mistura de sangue receberam o rosto que se enterrava nelas, e as lágrimas que escorriam pelos dedos.
Tinha gosto de sangue na boca, com certeza seu amigo havia revidado em algum momento. Sentia a dor nos nós dos dedos e o vazio no peito. Não fazia ideia de como subir ao palco novamente.
Ou se queria.