#02 - 05/05 ás 1h
Já passava da meia-noite quando Alexander entrou no armazém em Yongsan. O feixe de luz estava concentrado no centro do ambiente, enquanto o único som presente era o da música abafada em seus fones de ouvido. Seu olhar percorreu as telas encostadas ao fundo; não eram suas melhores peças, mas sim referências, registros de evolução e inspiração. Não tocava em nada há quase um ano. Mesmo assim, decidiu ceder ao seu hobby secreto depois de um longo dia de trabalho.
Sentou-se no banco de madeira diante da tela em branco, arregaçou as mangas da camisa social, organizou as tintas e escolheu o pincel. Os primeiros traços surgiram como de costume: precisos, contidos, quase calculados demais. Cada linha obedecia a uma regra clara, repetindo o padrão que sustentava há anos: controlar antes que algo escapasse, conter antes que o pincel falasse mais alto que sua própria consciência.
A mudança repentina da música trouxe à tona alguém específico à sua mente. Cantarolando baixo, escolheu uma cor que não passou pelo crivo crítico das anteriores, como se apenas se deixasse levar pelo momento. Aos poucos, o traço perdeu a rigidez, a composição começou a se expandir e, dessa vez, ele não tentou corrigir. As cores se distanciaram da paleta habitual; onde antes existia peso, agora surgia luz e, pela primeira vez em muito tempo, foi guiado por emoção ao invés de lógica.
Alexander recuou alguns passos e observou a tela quando finalmente terminou. Aquilo não carregava nada das pinturas anteriores. Era algo mais leve, quase como um jardim indefinido, formado por manchas de cor e formas soltas, sem contornos precisos. Franziu o cenho, como se observar melhor fosse suficiente para compreender o que via, mas não foi. Ainda assim, algo ali lhe parecia familiar. Levantou-se e seguiu até o lado oposto do armazém, encontrando o que procurava atrás de uma tela maior.
Seus olhos alternaram entre a pintura em suas mãos e a que permanecia no cavalete. A diferença técnica entre elas era inegável, mas havia algo em comum. Não na precisão, nem exatamente nas cores, mas na leveza. Ambas pareciam vivas, o que destoava completamente do que vinha produzindo nos últimos anos. Por um instante, pensou que aquela pintura pudesse não ser sua, que talvez a tivesse comprado e misturado às outras sem perceber. Mas, ao virá-la e ler “Alexander, 8 anos” no verso, congelou.
Ele não se lembrava de ter pintado algo assim.
Não com tanta paixão. Não com aquela liberdade.
Não tão bonito assim. Mas tinha. E agora era capaz de criar algo delicado (quase sentimental) novamente. Tentou entender o motivo por alguns minutos, embora já soubesse a resposta. Talvez tivesse encontrado alguém que o fazia se sentir humano, em vez de algo a ser utilizado. Como havia se sentido uma única vez na infância.