01월 29일

Hera queria saber em que momento especificamente tudo havia mudado.
não era de seu feitio ficar remoendo o passado ou se recordando do que poderia ser considerado momentos felizes em família, porém, dado todo o clima festivo do Seollal, era impossível não se sentir nostálgica. no dia anterior havia pensado na possibilidade de usar o hanbok guardado no fundo de seu armário, sabia que a academia faria alguma coisa, poderia aproveitar que seus pais não iriam pisar lá, mas o clima ainda não parecia amistoso o suficiente para aquilo.
o sono leve permitiu que ela escutasse o som insistente da campainha naquela manhã de quarta-feira, coisa que não era nada comum em um feriado. não estava esperando por ninguém e por isso fingiria não estar em casa por mais algum momento até que a pessoa que estivesse lhe importunando fosse embora, o que não aconteceu. xingou toda uma geração quando se levantou, tropeçando nas próprias pantufas e chutando uma caixa de algum produto que havia chegado naquela semana, franzido o cenho assim que viu o rosto do porteiro de seu prédio pela câmera.
“senhor Park...?” perguntou em um tom ainda sonolento, tentando entender o que aquele senhor estava fazendo na sua porta tão cedo — embora já se passasse das 11h...
“Hera-ssi, sinto muito tê-la acordado! sua irmã deixou isto na portaria...” falando por trás de uma máscara, lhe entregou uma caixa e uma pequena mochila que ela sequer havia percebido que ele segurava, mas que ela reconhecia bem, o que a espantou. “sou alérgico a gatos e estou quase terminando meu turno, então não poderia ficar com ele por muito tempo.” e isso explicava o espirro que ouviu antes de abrir a porta, mas Hera ainda estava atônita com a chegada de Duque em seu apartamento, sem o seu consentimento.
“como assim ela deixou na portaria?” questionou ainda sem entender como aquilo foi acontecer sem que soubesse de nada, não se lembrava de ter falado sobre aquilo com Haeri, provavelmente nunca o falaria. dada a expressão do senhor Park, Hera não poderia manter o gato perto dele, por isso tratou logo de pegar os pertences do gato e afastá-los do homem. “o senhor vai ficar bem?”
“claro que sim, não se preocupe! ela disse que não subiria porque você estaria dormindo pesado...” uma puta mentira. “então me pediu para entregá-la quando acordasse ou estivesse de saída, mas isso já faz algumas horas.” senhor Park era um velhinho gentil demais para negar tal maluquice de sua irmã, Hera poderia estar grata pelo homem ter se esforçado — e se arrependia de, provavelmente, ter insultado alguém de sua família sem saber —, mas não perdoaria Haeri, porque ela sabia que Hera não concordaria com aquilo previamente.
se despediu do senhor Park e lhe desejou um feliz Seollal, fechando a porta e encarando a caixa azul de Duque, que não tinha nada a ver com o impasse entre Hera e sua irmã. na mochila (sinceramente, que tipo de gato tinha uma mochila?) viu um papel amarelo, reconhecendo imediatamente a caligrafia estranha de Haeri assim que o pegou.
Omma e appa não vão poder ficar com ele, espero que seja uma boa tia para o senhor Duque. Atenda o maldito celular se não quiser se preocupar com despesas.
Com carinho (ou nem tanto assim),
Haeri.
Hera riu incrédula, nem ela seria capaz daquilo. bem, talvez...
“seu pestinha... deve estar bem feliz que não foi para um hotelzinho.” murmurou ao abrir a caixa e ver o gato rechonchudo sair desfilando e se espreguiçando como se já estivesse em casa. entrar em contato com Haeri seria perda de tempo, ela provavelmente já estava em um avião indo direto para sabe-se lá onde, o que só aumentou a impaciência de Hera, que inspirou pesado ao passar a mão sobre os cabelos bagunçados. não seria a primeira vez que cuidaria de Duque, mas comparar algumas horas com meses era bem diferente.
verificou aquela mochila só para ter certeza do que seu hóspede havia levado, porém o norigae chamou sua atenção mais do que sua curiosidade pelos pertences felinos. sabia que aquilo não era de Duque, assim como também sabia que Haeri não não havia o colocado ali por engano, era para ela. deixou a mochila de lado e resmungou, como se Haeri estivesse mesmo a encorajando com aquele pequeno acessório, embora não estive ali.
se reunir com sua família para o Seollal — ou para qualquer outra ocasião — sempre terminava em alguma discussão, o que achava ser um desrespeito naquele período. só precisava pedir bênçãos e agradecer por mais um ano, qual era a dificuldade de seus pais manter um clima pacífico? essa era a razão para que Hera evitasse tanto comemorar com eles, nem que ficasse sozinha ou com Haeri, o que naquele ano não seria possível. precisava melhorar o seu humor urgentemente ou, por acaso, contagiaria quem estivesse por perto.
revirando os olhos, Hera rumou para o quarto dando uma última olhada para o gato preguiçoso. iria usar aquele hanbok uma única vez e faria suas oferendas na academia, seus gentis e solidários antepassados não tinham culpa pela sua família ser daquele jeito, eles ainda mereciam ser homenageados.
e, para não aborrecer os espíritos da família Park, se lembraria de fazer um sabae para o seu querido porteiro.
