01, about grades.

01, about grades.


O fim de um semestre era sempre um problema - isso era algo que Liam havia aprendido com o passar dos períodos na Yonsei. Era o seu terceiro, então ele já tinha visto sua dose de colegas a flor da pele, chorando se um “A” saísse um pouco mais torto. Mas agora era só alívio. Era assim que Liam se sentia ao sair de sua última prova. Finalmente as semanas sem dormir, a ausência dos amigos e do namorado iriam parar um pouco. 

Claro, a sensação não durou muito, porque no dia seguinte viria a pior parte. O saldo de todo seu esforço, suas noites mal dormidas e todas as aulas de tutoria colocada em um pequeno número: 7,8.

Não era uma nota ruim, claro. Significava que Liam havia avançado para o próximo período e concluído mais uma etapa, mas ao mesmo tempo o loiro sentia como se não traduzisse todo seu esforço… fora que o garoto não sabia se seria suficiente para seu pai, e ter que se apresentar diante dele poderia ser mais difícil do que sua pior prova. 

***

Ainda era sábado de tarde, mas o quarto de Liam estava mergulhado numa penumbra. A tela do notebook iluminou seu rosto, e uma ring light esquecida por Erin concluiu o trabalho de o iluminar bem, mas deixar o restante do fundo em segredo. Ele ajustou o ângulo da câmera três vezes antes de pensar em ligar para seu pai. Não que estivesse nervoso, claro; apenas queria garantir que a iluminação estivesse boa, que o fundo não mostrasse a bagunça de roupas sobre a cadeira e que seus olhos não transparecessem o cansaço que teimava em se instalar através de suas olheiras.


— Oi pai – o garoto cumprimentou, o sorriso surgindo automático, treinado. — Você está bem?


Kang Jihoon o encarava através da tela com aquela expressão que Liam conhecia tão bem: análise. Era a mesma expressão que fazia quando lia um relatório, quando avaliava cada detalhe, cada vírgula fora do lugar. O homem assentiu brevemente e Liam notou que seu pai já estava de terno, mesmo sendo meia-noite em Melbourne. Seu pai sempre estava de terno.


— Estou. – A voz do pai era grave, idêntica à que ecoava na garganta de Liam quando ele falava mais baixo. Ele herdara aquilo, junto com o formato do rosto, o jeito de franzir a testa. — Você já está no dormitório?

— Sim. – Liam desviou o olhar por um segundo, alcançando o copo de refrigerante na mesa. — Erin foi dormir cedo hoje. Ele teve uma semana puxada.


O nome escapou antes que pudesse evitar. Liam percebeu o erro no instante seguinte, quando viu a sobrancelha do pai se erguer quase imperceptivelmente. Mas já era tarde demais para evitar o que viria.


— Eu sei que ele teve uma semana puxada. – O homem inclinou a cabeça, e Liam sentiu o estômago se contrair. — Eu vi o ranking do semestre.


Silêncio.


Liam engoliu o refrigerante com mais dificuldade do que deveria. O líquido desceu gelado, mas não aliviou o calor que subia pelo seu pescoço. Estava nervoso, porque assim que batera os olhos naquela lista de nomes, sabia que isso aconteceria. 


— Ah – ele soltou, tentando manter o tom leve, despreocupado. — Sim, o Erin foi muito bem, não foi? Tô muito feliz por ele, o Erin estava tão nervoso, estudou tanto… Mereceu–

— E você? – Jihoon cortou, direto, sem rodeios. Seu pai nunca gostou de rodeios. — Seu CR foi 7,8.


Aquilo não era uma pergunta e Liam sabia disso. Seu pai não perguntava coisas que já sabia; ele apenas confirmava, como quem assina um documento já redigido. Era mais um aviso, um questionamento sobre sua capacidade. Sua família sabia bem da dificuldade que Erin tinha com as disciplinas teóricas, haviam visto todas as sessões de estudo que ambos tinham juntos quando adolescentes. Não é como se Liam, seu pai ou sua mãe duvidassem da capacidade de Haerin, mas certamente esperavam que, no mínimo, Liam se saísse tão bem quanto. Bom, não foi assim que aconteceu.


— É verdade - Liam deu de ombros, um gesto que esperava que parecesse casual, controlado. Como se dissesse: o plano era esse mesmo, nada está saindo do controle — Poderia ser pior, não acha? Pelo menos passei em tudo.


O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.


Jihoon não disse nada por longos segundos. Apenas o observava, os dedos entrelaçados sobre a mesa à sua frente. Por mais que não aparecessem na câmera, Liam conseguia imaginá-los perfeitamente - seu cérebro completava a imagem. Era o mesmo gesto que fazia quando avaliava um investimento arriscado. Liam já tinha visto aquela postura dezenas de vezes, e nunca significava nada bom.


— Você está feliz com isso? – a pergunta veio finalmente, mais suave do que Liam esperava. Mas suave, com seu pai, era perigoso. Suave era o prelúdio de uma lição de moral disfarçada de mentoria. 

— Feliz? – Liam repetiu, o sorriso vacilando. — Quer dizer, não é como se eu tivesse tirado notas terríveis, pai. 7,8 é...

— Mediano. – Jihoon completou a frase por ele. O tom continuava suave, mas agora havia subtom firme, algo que Liam não conseguia nomear, mas que temia que fosse decepção. — O que é perfeitamente aceitável para a maioria das pessoas. Mas você não é a maioria das pessoas, Jinsun.


Liam sentiu o nome coreano como um beliscão na nuca. Seu pai só o chamava assim quando queria lembrá-lo de algo – sua mãe, Erin, todos usavam “Jinsun” para chamar sua atenção; como se quisessem atentá-lo sobre quem ele era, de onde vinha, do que deveria ser.


— O Erin –  seu pai continuou, e Liam teve que fazer um esforço consciente para não revirar os olhos. Ou chorar. Ou sair correndo. — Ele entrou para o ranking. Ele se dedicou, se concentrou, e colheu os frutos. Já você... – o homem fez uma pausa, os olhos estreitando — o que você fez?


A pergunta pairou no ar como uma faca. Liam abriu a boca para responder, depois fechou, hesitante. Seus dedos moveram-se sobre o copo tamborilando, tentando dar conta de toda angústia. Então ele ouviu o som do gelo contra vidro, um tintilar distante que o fez imediatamente parar. Não podia dar sinais de nervosismo.

O que ele tinha feito?

O que ele fazia sempre: seguia, tentava; se esforçava para caber no molde que todos pareciam ter para ele. Estudava o suficiente para não ser um fracasso, mas estaria mentindo se dissesse que queria ser um sucesso – odiava ter holofotes sobre ele, odiava deixar marcas. Isso só aumentava a expectativa sobre si, dificultava a mudança de uma narrativa… Então ele seguia, como se a vida fosse uma engrenagem que girava por inércia, movida pelas expectativas que moldam o momento Liam é uma página em branco, um mar aberto para as reações, o que quer que precisem.


— Eu fiz o que pude – o loiro respondeu, mas a frase soou tão vazia que quase riu de si mesmo. — O senhor sabe, a faculdade tá corrida… Têm os clubes, as provas, e agora o taekwondo. E o Erin também precisa de...


Liam cortou a frase imediatamente. Não queria terminá-la, não podia. “O Erin precisa de mim. O Erin está sempre precisando de mim”. Mesmo sem querer, a frase concluiu no fundo de sua mente e o garoto precisou se segurar para não chorar. Amava Erin, daria tudo de si todos os dias e continuaria assim pelo resto de sua vida, mas às vezes, junto a todas as outras coisas…

Havia sempre algo para dar; algo que não sabia se era propriamente dele, ao menos quando não se tratava de seu namorado. Mas devia ser, afinal ainda era Liam, certo?  Porque ao dar, Liam não precisava pensar no que sentia. Não precisava pensar nos porquês, apenas observar os sorrisos satisfeitos. Era óbvio que sentia angústia, mas quando se está ocupado demais para processar, não há espaço para que ela rasteje e ameace se instalar em seu peito. Ninguém queria alguém fraco, não seu pai, não sua mãe. O namorado também precisa de força, então nada mais justo que entregar.


— Entendo. – Jihoon acenou lentamente quando viu que a frase não continuaria. Ele não parecia convencido e ninguém lhe privaria de sua exigência — Você está ocupado, todos estamos. Mas a diferença, Jinsun, é que alguns sabem administrar sua ocupação para alcançar resultados. Outros... – ele fez uma pausa. — Outros deixam a vida escorrer pelas mãos.


As palavras atingiram como um soco. Liam sentiu o ar escapar de seus pulmões, mas seu rosto permaneceu neutro. A máscara não escorregou porque não podia. Se caísse, seu pai veria o que havia por baixo. E Liam não tinha certeza se sabia o que havia por baixo.


— O senhor quer que eu seja melhor – disse, e a frase saiu mais plana do que pretendia. — Eu sei.

— Não quero que você seja melhor. Quero que você seja o que pode ser. – Jihoon inclinou-se para frente, e pela primeira vez, Liam viu algo além da rigidez nos olhos do pai. Preocupação, frustração? Liam não sabia — Você tem tudo, Liam. Os recursos, a educação, o nome. Mas está se contentando em ser mediano enquanto alguém supera as próprias dificuldades e te supera. O que isso diz sobre você?


Que eu estou cansado. A resposta surgiu na mente, clara e indesejada. Mas ele não a disse. Em vez disso, deu um sorriso, aquele sorriso que usava quando queria que o assunto terminasse.


— O senhor tem razão, pai. – o sorriso chegava a doer no rosto. — Vou me esforçar mais no próximo semestre. É só que... é meu primeiro namoro… Acho que me distraí um pouco.


Jihoon sustentou seu olhar por um momento, e Liam soube que havia dado a resposta “certa”. Não era a que queria dar ou a que acreditava –   Erin não o distraía, mas sim oferecia suporte. Talvez os únicos momentos de verdadeiro descanso, ainda que às vezes… Ah, às vezes…

Então o pai bufou, chamando atenção do filho. Era um som curto, um quase grunhido de frustração. Parecia um pouco que ele via a mentira que o filho contava, mas Liam sabia que seria a resposta que o pai guardaria para si, porque desde o início era o que ele queria ouvir.


— Namoros não são desculpas, Jinsun. São distrações. Você precisa aprender a separar as coisas, ou sua vida inteira será governada por aquilo que você sente.


Havia algo de pessoal na frase de seu pai; era atípico, como se o conselho não viesse exatamente de pesquisas ou números, mas da própria experiência. 


— Sim, pai. – Liam abaixou o olhar. Na tela, o reflexo de seu rosto se desdobrava, e ele viu, por um instante, a imagem do pai sobreposta à sua. — Vou me organizar melhor. O senhor tem razão.


Jihoon o estudou por mais alguns segundos, e então a postura do homem relaxou, quase imperceptivelmente. Ele ajeitou o colarinho num gesto automático e profissional, mas não houve um segundo de sua frase que fosse corporativa: “Acredito que você vai melhorar. Você sempre melhora quando se esforça, Liam. Isso nunca foi uma questão de capacidade.”

Era um elogio, e o pai dificilmente fazia elogios; quando aconteciam, porém, eram no exato momento em que Liam precisava. O loiro nunca sabia se deveria se sentir grato porque sempre havia um ar de estranheza, de inaptidão social. Mas também havia algo no tom, uma certeza que só seu pai era capaz de transmitir, que quase sempre confortava o coração de Liam; o problema é que essa certeza, nesse momento, pesava mais do que qualquer crítica.


— Precisamos falar sobre seus investimentos. – Jihoon já estava passando para o próximo assunto, a conversa anterior arquivada como um e-mail lido e descartado. Ele nunca foi bom em ser sentimental — Há algumas movimentações no mercado que podem ser vantajosas. Mandei o relatório para seu e-mail.


Talvez tenha sido com ele, e não com sua mãe, que Liam aprendeu a passar de uma demanda a outra sem perder tempo, afinal.



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