001: NOT THE ONE.
TW: Este texto aborda luto, perda e os efeitos persistentes do trauma. Contém referências à morte violenta, culpa do sobrevivente, insônia e memórias sensoriais intrusivas.
Sally acordou de repente, sentada na cama, com a respiração curta e a certeza absurda de que havia sangue por toda parte. A sensação vinha antes do pensamento, sempre. Nos dedos, no tecido da roupa, no cabelo. Um incômodo físico, quase sufocante, como se o corpo lembrasse antes da mente. Ela levou alguns segundos para entender onde estava. Mais alguns para aceitar que, de novo, não conseguiria voltar a dormir.
A imagem nunca vinha inteira, mas vinha suficiente. O necrotério. A pedra fria. O corpo do irmão imóvel, sem cor, sem calor. O tiro bem no centro da testa. Foi ela quem fez o reconhecimento. A última vez que viu Sonny foi assim, reduzido a algo que não respondia mais. Aquela cena se tornou o ponto fixo em torno do qual seus pensamentos passaram a girar. Ele tinha sido o porto seguro, a referência constante desde a infância. O centro. Quando ele existia no mundo, tudo parecia possível. Sem ele, tudo parecia deslocado
Desde então, Sally não dorme direito. Vive de cansaço acumulado. Recorre a chás, a longas horas a cavalo, como se o movimento pudesse reorganizar algo por dentro. Funcionava melhor antes. Ultimamente, nem isso. A mudança piorou tudo. Longe de casa, longe da família, a solidão ganhou um peso novo. Sonny era a âncora. Com ele, ela enfrentava qualquer coisa. Sozinha, a sensação constante é a de não pertencer a lugar nenhum.
Ela sempre acreditou que suas escolhas eram dela. A carreira, o gosto por cavalos, futebol, uísque, tudo parecia convicção. Só agora começava a perceber o quanto disso foi tentativa. Uma forma de não se afastar dele, de continuar próxima, mesmo depois da morte. Como se viver algo que lembrasse Sonny fosse uma maneira de mantê-lo por perto. Mas viver uma vida que não é genuinamente sua cobra um preço. E ela vem pagando há anos.
Teve mais um dia difícil, depois de muitos outros. Desde que chegou à cidade, sentia a resistência do xerife. Um incômodo claro, quase deliberado. Como se ele não a quisesse ali.
“Você é uma estranha. Não pertence a este lugar.” ele disse, depois de uma discordância a respeito de como o trabalho deveria ser distribuído.
A frase foi simples, quase banal. Ainda assim, a acertou em cheio. Sally até se envergonharia de admitir o quanto aquilo a atingiu. Não era sobre autoridade, nem sobre o cargo. Era sobre algo mais fundo. A velha sensação de ser uma impostora. De estar ocupando um espaço que não era seu.
A verdade que ela ainda não tinha coragem de formular era simples e cruel: Sonny era quem deveria estar ali. Vivendo aquela vida. Não ela. Ela nunca quis realmente estar naquele lugar. Se pudesse, teria trocado de lugar com ele sem pensar. Em qualquer circunstância. Em qualquer tempo.
Sally acreditava que a culpa vinha de ter deixado a mãe sozinha, o pai doente para trás. De ter sido irresponsável o bastante para acabar transferida para um lugar distante e mal pago. Mas isso era só a superfície. A dor não tinha a ver com a cidade, nem com a polícia, nem com os cavalos, nem com a vida que ela construiu copiando fragmentos do irmão. Doía porque Sonny não estava mais ali. Porque, apesar de tudo, ela não conseguiu salvá-lo. Não conseguiu mantê-lo no mundo.
Todas as noites terminavam do mesmo jeito. O corpo exausto, a mente alerta. A sensação de sangue voltando, sufocando, ocupando tudo. Junto dela, uma dor aguda no centro do peito, precisa, conhecida. Não havia distinção entre memória e presente. Era sempre a mesma coisa.
Ele está morto. Não vai voltar.
Sally não desceu à sepultura com o irmão no dia do enterro. Mas, de certa forma, vem se enterrando nele desde então. Transformou a própria vida em um memorial silencioso, um cemitério de desejos adiados, sonhos abandonados, escolhas que nunca foram inteiramente suas. Como se essa fosse a punição possível por ter sobrevivido. Como se viver fosse a culpa que ela carrega por não ter sido ela no lugar dele.