⠀⠀⠀⠀
⠀
Às vezes, quando a noite se tornava quieta demais ou o mundo lhe parecia distante demais para alcançar, Saena ainda retornava às redes sociais de sua mãe. Era um gesto calado, ritualístico, como visitar um túmulo coberto por flores que insistiam em desabrochar. Deslizara os dedos com delicadeza pela tela, como se, ao tocar aquelas imagens, pudesse tocar também um tempo que já não lhe pertencia. Fazia isso por saudade, uma forma mansa de dor, ainda que cada fotografia lhe ferisse por um motivo diferente.
Naquela noite, andara ao seu quarto em passos lentos, e, sem pensar, como quem repete um hábito antigo, destravara o celular. O aplicativo já lhe era familiar o bastante. Digitara o nome da mãe, letra por letra, e o perfil logo surgira: repleto de momentos bem enquadrados, sorrisos perfeitamente editados, legendas amorosas que pareciam escritas para alguém que nunca fora ela.
Esboçara um meio sorriso, pequeno, frágil, involuntário. Mas ele morrera no instante seguinte, ao se deparar com a publicação mais recente.
Era uma imagem singela. Um par de sapatinhos brancos repousava sobre a palma de seu pai. Ao fundo, a mãe sorria. Um sorriso sereno, pleno, e, sobretudo, distante. A legenda era breve, mas suficiente para revirar o que restava de seu coração: “Nosso pequeno milagre está a caminho.”
Saena congelara.
O peito comprimira-se como se o ar houvesse se tornado vidro. Os olhos marejados vagaram, incertos, mas logo se fixaram naquela cena com uma dor que crescia sem nome. A legenda reverberava em sua mente como um eco maldito, como se o anúncio da gravidez não fosse apenas uma notícia, mas uma sentença.
Sentara-se à beira da cama sem perceber. Ao redor, o mundo silenciara de maneira quase cruel. Tentara respirar, mas o ar lhe escapava como se lhe faltasse o direito. Algo dentro dela, então, desabou, e desabou fundo, onde ninguém mais veria.
Não era apenas a chegada de um novo filho.
Era a evidência incontestável de que haviam recomeçado.
Sem ela.
Não escreveram.
Não ligaram.
Não perguntaram se comera bem nos últimos dias. Se ainda chorava. Se ainda existia.
Agora havia outro. Um novo filho. Uma nova promessa. Uma nova história: limpa, promissora, sem as imperfeições que a fragilidade de Saena carregava.
Ela era a rachadura do passado.
O erro que se esconde.
A página que não combina com o novo enredo.
E ali estava, encarando uma tela fria, tentando compreender o que ainda restava de sua existência em um lar que deixara de ser seu.
A mãe sorria na foto. E aquele sorriso doía mais do que qualquer palavra não dita.
Saena não soubera o que fazer.
Nem ao menos chorara de imediato.
Apenas permanecera ali, imóvel, como se o tempo houvesse parado ao seu redor, ou como se ela própria houvesse deixado de existir por um instante.
Era como uma fotografia esquecida no fundo de uma gaveta: empoeirada, silenciosa, invisível.
Ainda ali, mas para ninguém.