Ana acorda

Ana acorda

Vanessa Guedes

“Não olha no espelho antes de três dias, senão tu vê o diabo”.

Ela olhou.

Viu apenas sua face manchada de sangue seco marrom, o cabelo desgrenhado e um par de olheiras. Não deixava de ser uma imagem tão medonha quanto o próprio diabo, ela pensou. Tomou um banho quente, tirou todas aquelas melecas escuras, o cheiro forte de lavanda, e as folhas de louro que ainda grudavam no seu corpo. O cabelo ainda tinha resquícios do aroma da arruda, mas o cheiro do desodorante desviava um pouco o olfato. Deitou no sofá, ligou a televisão e escolheu um filme.

Fora a avó que dissera que aquele procedimento ritual espantaria a força que estaria vivendo na casa dela. “Importante é saber que força é essa que vive nessa casa. Vai nesse endereço aqui que eles te ajudam a despachar o que quer que seja”. E ela, que não acreditava em nada, foi. Pois tinha parado de acreditar em eletricistas também.

Ficou esperando a televisão desligar, a lâmpada da sala piscar, ou algum eletrônico queimar. Nada. Passaram duas horas sem que absolutamente nada acontecesse. Seus gatos não corriam mais desesperados pela casa, mas tampouco se aninhavam calados em seu colo. Tudo bem, tinha dias que eles eram assim.

Pensou na sua imagem no espelho. Se adicionasse um par de chifres de cabra, ela bem poderia ser o demônio mesmo. Cabras. Ficou pensando sobre o que aprendera da vida delas na aula de biologia. Parecia ter sido em outra vida. Cabras eram uns bichos que tanto as fêmeas quanto os machos tinham chifres e barba – todos poderiam ser demônios. Justo. Pensou na cabra cujo sangue escorrera pela sua cabeça na noite anterior. Tudo acontecera sob a supervisão de um velho senhor, de pele negra e barba branca, que mantinha o semblante austero enquanto todos assistiam o animal gorgolejando vermelho. Uma aura de sagrado estranha, sensação de limpeza profunda, e os pés descalços na terra. Era tudo vermelho e branco lá. Será que a cabra sabia o que lhe aconteceria enquanto caminhava tranquilamente para a sala do sacrifício? Certamente. Demônios sabem. Eles sempre sabem. Ela havia aprendido na catequese. E também aprendeu, há muitos anos, que mexer com aquilo era pecado. Mas muitas coisas que ela fazia poderiam ser, e há muito tempo estava desistindo de encontrar uma saída para todas elas. Apenas teve medo, como qualquer outra pessoa, daqueles acontecimentos na casa. Mas aquela também não era a primeira casa em que ela encontrava aqueles problemas.

Passaram horas, a noite chegou. Sentiu falta de algo. Agora era ela e o silêncio, não havia mais nada com o que se preocupar. Não havia nem os estouros de lâmpadas explodindo, que a deixavam em estado de alerta. Só a quietude e a lembrança do cheiro fresco do sangue da cabra escorrendo pela sua cabeça inteira. A dívida para com aquelas entidades que não entendia já estava paga, ao que parecia.

A avó diria que o “trabalho” dera certo. Nenhum curto circuito e nem palpitação dos bichos. Ela começou um suspiro de alĩvio, mas parou no meio. Não é que ela parara de sentir as coisas acontecendo, mas parecia mais com a calmaria e o vento quente que vinham antes da tempestade. Talvez fosse só cautela. “Eu disse para não olhar no espelho”, a voz da sua avó ecoou dentro da mente. Agora era tarde demais, vovó.

Os dias seguintes foram estranhos. Acordava com o cheiro do sangue vívido na mente. Era como se um sonho se mesclasse à realidade do despertar da manhã por alguns momentos. Longe de se sentir repugnada, cada dia parecia que o cheiro daquela lembrança fazia parte do seu dia a dia. Aliás, parte dela mesma. No terceiro dia sentiu fome, como se tivesse fumado maconha, e comeu com voracidade animal. Comeu carne em todas as refeições, e quanto mais comia, mais desejo sentia. Um dia, enquanto comia a carne mais mal-passada da qual lembrava, a campainha tocou e o barulho ecoou tão forte na sua cabeça, que parecia a própria chamada do inferno. Imaginou o velho preto rindo dela, em uma lembrança rápida e sem sentido. Atendeu – não tinha ninguém na porta. Voltou, furiosa, e continuou a refeição. Parecia estranho e inquietante aquele som contínuo da televisão ligada sem mais nenhuma interrupção. Parecia que às vezes ela sentia falta daquela atividade anormal que rondava os cômodos da casa. Sentia falta da televisão desligar e ligar sozinha, aumentar ou diminuir o volume quando ela menos esperava.

Os gatos apenas se alimentavam e dormiam. Não chegavam perto nem quando ela os chamava. E chamava apenas por hábito, não tinha a mínima vontade da sua companhia. Os dias passavam em um frenesi sangue – cabra – cheiros – almoço – sangue – dormir – bifes – cheiros – sangue. O telefone não tocava, os emails não chegavam, e ela também esquecera dessas coisas. A fome era sempre grande.

Não ia mais ao açougue. Eles entregavam em casa, e o último lote havia sido tão grande que estava durando há cinco dias. Inebriava-se do cheiro do sangue seco quando descongelava os pedaços de carne vermelha, desossava as grandes peças, mas depois resgatava os tutanos para lambê-los vendo televisão até tarde da noite.

Um dia levantou do sofá e descontrolou-se em uma pequena fúria porque não achava o controle remoto. Olhou para um lado e para o outro, depois com raiva para a televisão. E subitamente, ela desligou. Perguntou-se se toda aquela orda de coisas estranhas voltariam a acontecer.

Nos dias seguintes quis sentir o sangue de cabra a escorrer-lhe pela faces, pelos cabelos, pelos olhos, pelo peito, e por tudo, outra vez. Não queria voltar lá naquele lugar, tampouco. A lembrança da face austera do velho que matara a cabra se transformava, aos poucos, em uma risada que lhe causava arrepios. Não vira o velho rir em nenhum momento, mas a sua cabeça lhe trazia essa imagem. Era como se pudesse ver seus dentes vermelhos, manchados de sangue, surgindo arreganhados da barba branca, enquanto os olhos se contraíam fazendo graça dela.

Ligou para o açougue e pediu a peça mais fresca e mais inteira do lugar: um animal vivo. O dono do açougue hesitou, cobrou mais caro, desistiu. Nesse momento a raiva vibrou dentro dela e virou um lampejo de ira. Uma lâmpada queimou aquele dia; não na casa dela, mas no escritório do açougue. Ela não estava lá para ver, mas sabia. Demônios sempre sabem de tudo.

A campainha tocou. Havia uma cabra na porta. Uma corda unindo o pescoço do animal ao gancho da maçaneta. Ninguém ali para cobrar o serviço. Somente a cabra, brilhando em uma aura de inocência. Sorriu. Levou a cabra para dentro, deixou no banheiro de azulejos imaculadamente brancos. Na garagem, afiou um facão qualquer.

Correu para o banheiro. As luzes brancas fluorescentes da casa machucaram seus olhos, deixando tudo mais e mais branco, uma luminosidade excessiva. Parecia que conseguiria ver através das paredes, de tanta luz. Além disso, tudo o que sentia era aquele piso frio tocando a sola dos seus pés. Piscou. Chegara no banheiro. Olhou para a cabra. “Então, você é o diabo.”

Avançou rápido, com uma destreza facilitada pela luz que a fazia enxergar cada detalhe. Arremeteu o primeiro golpe no peito. No meio daquele pêlo macio e alvo. Repentinamente o vermelho manchou o branco imaculado. Nem um gemido, ganido ou berro. O sangue escorreu quente. O gosto era parecido com soro morno misturado a vinho doce e suor. Era bom. Cobriu o rosto, as mãos, os braços, o pescoço. Se pintou inteira de vermelho vivo. Deitou abraçando a cabra trêmula e rolou no tapete de sangue que manchava o branco do banheiro. Lambeu as víceras rasgando a carne da barriga do animal com as mãos. Pegava a cabra com os braços, com as pernas, envolvia o bicho como se eles fossem um só. Abraçava todo o seu calor, e sentia seu o pulso acelerando enquanto o do outro se esvaia. E as luzes da casa inteira piscavam.

De repente, a ponta dos dedos tocaram algo duro e impenetrável. Sem pêlos nem carne. Os chifres da cabra. Ela sorriu satisfeita. Teria seus chifres então. Manchou o corredor inteiro de pagadas de sangue, buscou um cutelo na cozinha, voltou para o banheiro e partiu para cima da cabra já imóvel. Golpeou dezenas de vezes contra o osso, até que partiu a cabeça do bicho em dois, na horizontal, como se tirasse uma tampa de miolos e crânio, com uma alça de par de chifres no topo. Contemplou tudo por um momento, e então, levantou do chão ensangüentado.

Vestiu sua coroa de chifres e fechou os olhos para sentir o resto de sangue quente lhe cobrir as pálpebras. Andou, com cuidado para não escorregar, até o espelho. Abriu os olhos e sorriu.

O diabo a contemplou e sorriu de volta.